setembro 30, 2004

OS MAUS EXEMPLOS DOS DUPLOS

Há muito tempo que os actores de cinema consagrados se poupam na gravação das cenas que envolvem risco físico. Para isso foi criada uma profissão, a dos duplos, que são pessoas muito parecidas com esses actores consagrados, que representam essas cenas de perigo, poupando os actores originais. São os duplos. No futuro, com o desenvolvimento da bio genética, os duplos estão condenados. O seu trabalho será substituído pelo dos clones.

Pois bem: cheguei à conclusão que Portugal tem actualmente um Governo de duplos. Cada governante tem um duplo. O original diz o que é preciso. O outro faz o que convém. O primeiro “dá” uma de Estado; o outro assina os cheques do regabofe. Um tem a pose de seriedade e de credibilidade, faz o género do discurso difícil e impopular. O outro, dá empregos aos amigos, distribui prebendas pelos salões, decreta as excepções ao discurso do primeiro.

O problema é que as trapalhadas deste Governo são tantas e tão graves que já há duplos a fazer de originais e originais que se revelam afinal de duplos.

Senão vejamos: vem o Primeiro-Ministro e diz que a retoma já se vê e que agora vamos poder começar a fazer coisas, isto é, a gastar dinheiro, onde antes não podíamos. Vem o ministro das Finanças e diz que não, que temos de apertar, que temos de pagar as taxas imoderadas, que temos de fumar a um conto de réis o maço, que temos de pagar portagens em todo o lado, mesmo onde as estradas foram pagas pela União Europeia e não por nós.

Depois vem o Primeiro-Ministro e diz que temos continuar os sacrifícios. Depois vem o ministro das Finanças e assina reformas faraónicas para os gestores da Caixa. Depois vem o mesmo ministro das Finanças dos sacrifícios e da justiça social e mete as clientelas do partido do coração, que não do cartão, na Caixa.

Depois vem o Primeiro-Ministro e paga ordenados de fazer corar o Presidente da República a assessores de imagem que já se percebeu que não fazem nenhum, pela simples razão de que a imagem do Governo é catastrófica.

O desvario e a gula é tanta que cheira a vésperas. Parece estarem todos a encaixar-se. É que agora o Primeiro-Ministro tem outro duplo. Feroz, culto de citações, e que é bem capaz de levar o eleitorado a variar das pulseiras para o Armani.

Publicado por Jorge Ferreira em setembro 30, 2004 08:25 PM
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