
Há muito tempo que os actores de cinema consagrados se poupam na gravação das cenas que envolvem risco físico. Para isso foi criada uma profissão, a dos duplos, que são pessoas muito parecidas com esses actores consagrados, que representam essas cenas de perigo, poupando os actores originais. São os duplos. No futuro, com o desenvolvimento da bio genética, os duplos estão condenados. O seu trabalho será substituído pelo dos clones.
Pois bem: cheguei à conclusão que Portugal tem actualmente um Governo de duplos. Cada governante tem um duplo. O original diz o que é preciso. O outro faz o que convém. O primeiro “dá” uma de Estado; o outro assina os cheques do regabofe. Um tem a pose de seriedade e de credibilidade, faz o género do discurso difícil e impopular. O outro, dá empregos aos amigos, distribui prebendas pelos salões, decreta as excepções ao discurso do primeiro.
O problema é que as trapalhadas deste Governo são tantas e tão graves que já há duplos a fazer de originais e originais que se revelam afinal de duplos.
Senão vejamos: vem o Primeiro-Ministro e diz que a retoma já se vê e que agora vamos poder começar a fazer coisas, isto é, a gastar dinheiro, onde antes não podíamos. Vem o ministro das Finanças e diz que não, que temos de apertar, que temos de pagar as taxas imoderadas, que temos de fumar a um conto de réis o maço, que temos de pagar portagens em todo o lado, mesmo onde as estradas foram pagas pela União Europeia e não por nós.
Depois vem o Primeiro-Ministro e diz que temos continuar os sacrifícios. Depois vem o ministro das Finanças e assina reformas faraónicas para os gestores da Caixa. Depois vem o mesmo ministro das Finanças dos sacrifícios e da justiça social e mete as clientelas do partido do coração, que não do cartão, na Caixa.
Depois vem o Primeiro-Ministro e paga ordenados de fazer corar o Presidente da República a assessores de imagem que já se percebeu que não fazem nenhum, pela simples razão de que a imagem do Governo é catastrófica.
O desvario e a gula é tanta que cheira a vésperas. Parece estarem todos a encaixar-se. É que agora o Primeiro-Ministro tem outro duplo. Feroz, culto de citações, e que é bem capaz de levar o eleitorado a variar das pulseiras para o Armani.