
Não foi necessário dissolver a Assembleia da República para a maioria se começar a dissolver a ela própria. Não foi preciso de demitir o Governo, para ele se começar a remodelar a si próprio. Não foi necessário criticar a Constituição europeia para o “não” ganhar terreno na opinião pública; a pergunta do CDS, do PSD e do PS encarregou-se do serviço.
Não foi preciso fazer jornalismo de investigação com as habituais fontes anónimas, para se saber que o Governo esperava que o desemprego já estivesse a baixar, quando afinal subiu; foi o próprio secretário de Estado que revelou a verdade contrariando o que o seu ministro havia dito.
Não foi necessária uma audição parlamentar para perceber a razão pela qual Portugal passou a ter um ministro da reabilitação; bastou ele ter dito que só por delicadeza é que não atirou pela janela fora o DVD que a Direcção do Benfica lhe foi entregar em audiência…
E assim vamos vivendo. Presumindo que não é preciso fazer a despesa de ter coragem para fazer o que se impõe, na certeza de que mais tarde ou mais cedo tudo acontecerá por si. São penosos os dias que vivemos. Provavelmente no poder já se fazem contas aos leasings assinados em 2002. Provavelmente nem se percebe o estado de desprezo em que o país vive acerca dos pequenos destinos de quem ainda nos governa. Provavelmente.
Quando um Primeiro-Ministro passa um terço de uma entrevista de televisão a falar de comunicação social, quando em quatro meses já fez uma remodelação, quando pelo meio já preparou e realizou um Congresso partidário e quando foi de férias três vezes desde que tomou posse, a pergunta óbvia é: e, já agora, se faz o obséquio, poderá porventura informar-nos de quando tenciona começar a governar? Se é que tenciona?
No meio da confusão estável em que as instituições funcionam regularmente, o Governo vai finalmente poder respirar de alívio. Começou ontem o julgamento do processo da Casa Pia. O país voltou a ter assunto. Quem se vai importar com o destino de Gomes da Silva, com a gramática do referendo ou com os problemas estruturantes?
Estou certo que o Governo, a maioria e se calhar até o PS estão convencidos que ninguém. É a situação mais perigosa. Confiando na indiferença aumenta a sensação de que o poder pode fazer tudo, que ninguém repara. Excepto o Presidente da República. Que se preocupa. Que está vigilante. Que remodela. Que zela por nós. Que bom.
E já agora obrigado a todos os que faz hoje 29 anos impediram o Campo Pequeno de receber a minha visita forçada, derrotando os comunistas e restante extrema-esquerda na tentativa de golpe militar que ensaiaram. Hoje, os derrotados, já passam por ilustres democratas e até, intelectuais. Que melhor prova de que não é preciso fazer nada para que tudo vá ao sítio?
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Afixado por: Webcam Girls em janeiro 15, 2005 04:56 AMParabéns. Maios um excelente artigo.
Afixado por: António Pereira em novembro 26, 2004 09:42 AMParabéns. Maios um excelente artigo.
Afixado por: António Pereira em novembro 26, 2004 09:41 AMNem mais, caro amigo!
Afixado por: Nuno Remédios em novembro 26, 2004 01:42 AM