
Cavaco Silva voltou ontem a dar um arraso na política económica do Governo, profetizando que Portugal vai continuar a empobrecer até 2006. Dezoito anos depois da adesão à União Europeia, muitos biliões de contos depois, muitos tratados depois, talvez tenha chegado a hora de fazer o grande balanço. Um balanço colectivo do deve e do haver de Portugal na Europa.
Se vier a haver referendo à Constituição europeia, o que ainda não se pode ter por certo, será um bom momento para o fazer. O que fizémos ao dinheiro? O que ganhámos? O que perdemos? Por que é que desde que existe o euro a vida está mais cara e a economia europeia está em estagnação? Depois de tantos incentivos, fundos, subsídios, programas, PEDIP's, PEDAP's, PRODEP's e quejandos, como se justifica que ainda estejamos a pedir que as empresas se tornem mais competitivas e os trabalhadores mais qualificados?
Fomos capazes de preparar a escola para isto? Fomos capazes de definir uma estratégia nacional? Sabemos o que queremos e para onde vamos? Ou a integração europeia, como insinuava há poucos dias Mário Soares, só serve para evitar revoltas militares? Ainda mandamos aqui? Ainda temos oceano? Ainda é em Lisboa que devemos fazer manifestações de protesto pelas decisões que nos afectam no dia-a-dia? Ou deveremos antes metermo-nos no avião e fazer a manifestação em Bruxelas, para José Barroso ouvir e perceber que nós percebemos que, afinal, ele foi pouco Primeiro-Ministro na outra encarnação, porque o muito já vivia no gabinete que agora finalmente ocupa?
Ou será que olhámos para o dinheiro que nos deram ainda e sempre como comerciantes que tinham ficado sem nada para vender na loja e descobriram que afinal era possível ainda adiar a ruína anunciada?
Estamos a empobrecer só por causa de um Orçamento feito por um Governo para 2006 sem rumo nem nexo, ou, pelo contrário, em resultado de uma acumulação sucessiva de gerações de políticas falhadas, erradas e de políticos conformados? O que fizémos das nossas privatizações? Um dínamo para a economia, o investimento e o emprego ou simples negociatas de transição para realizar mais valias chorudas, sem qualquer sentido de interesse nacional?
O ex-primeiro-ministro Cavaco Silva advertiu quinta-feira, no Porto, que a situação económica em Portugal «é complicada» e que o país «vai continuar a empobrecer até 2006», afastando-se «cada vez mais» da Espanha e da União Europeia.
«Eu não invento números. A Comissão das Comunidades Europeias publicou previsões até 2006 e está lá escrito que Portugal vai continuar a empobrecer até esse ano. Já foi ultrapassado pela Grécia e pela Eslovénia e vai ser ultrapassado pela República Checa», frisou Cavaco Silva.
O ex-primeiro-ministro, que participou numa conferência sobre «Os Desafios da Economia Portuguesa», promovida pela Associação Nacional de Jovens Empresários, sublinhou que Portugal «está no quarto ano consecutivo de afastamento da Espanha e da União europeia e vai continuar a afastar-se nos próximos anos».
Questionado pelos jornalistas acerca do discurso «optimista» do primeiro-ministro Pedro Santana Lopes e em concreto sobre o «início de uma retoma económica», Cavaco Silva considerou «natural» que em 2004 o crescimento económico seja superior ao do ano passado, porque em 2003 houve «uma recessão», mas sublinhou que «isto não resolve os problemas dos portugueses».
«O problema dos portugueses só será resolvido quando nós voltarmos a uma trajectória de aproximação aos níveis de desenvolvimento da Espanha e da União Europeia. Enquanto não crescermos à volta de três, três e meio por cento ao ano, Portugal continua a afastar-se do desenvolvimento dos outros", afirmou Cavaco Silva, realçando que «já não há tempo para ilusões, passes de mágica e palavreado inconsequente», porque, de outra forma, Portugal corre o risco de descer para a «segunda divisão dos país da Europa em termos de desenvolvimento».
Cavaco Silva, defendeu hoje na sede da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE) que a «chave» para a recuperação da economia portuguesa passa pelo aumento de exportações de bens e serviços.
Em 1990 as exportações representavam 33 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), isto é, cinco pontos acima da média da União Europeia, sustentou.
Em 2003, continuou, esse valor desceu para os 30,8 por cento e está 3,5 pontos percentuais abaixo da média dos quinze. «Não me parece possível ingressar uma tarefa de desenvolvimento estrutural ao nível da nossa vizinha Espanha, sem aumentarmos as exportações através da recuperação de quotas perdidas em sete anos (13 por cento) e da criação de novas quotas».
Para atingir este objectivo, o ex-primeiro ministro defendeu que existem «três batalhas» a vencer: a do aumento da produtividade, da eficiência do Estado e da autonomia da sociedade civil em relação ao poder político.
Para Cavaco Silva, os empresários devem assim «arregaçar bem as mangas» e «encarar a verdade nua e crua» da «situação complicada» em que vive a economia portuguesa.
O ex-primeiro-ministro deixou ainda o conselho aos jovens empresários para não se deixarem «pressionar», porque o sucesso das empresas não está em receber «benesses ilegítimas» do Estado, ou em qualquer troca de favores com agentes políticos e «chantagens».
Para o economista, os empresários devem apostar na melhoria da capacidade de gestão da empresas, na capacidade de inovação e na capacidade de penetrar nos mercados externos, pedindo ao Governo para actuar no sentido de melhorar a imagem do país.
Ao nível de mercados internacionais, Cavaco Silva disse ainda acreditar que Portugal deverá centrar-se em «meia dúzia» de mercados, propondo para isso o investimento nos EUA, Japão, Rússia, China e Brasil.
Com a devida vénia ao Expresso on line
A formação que tivemos ao longo destes anos de Europa foi a formação do "sustento". Sustenta-se aqui, sustenta-se ali, prende-se tudo com cordeis. E mesmo quando já não há solução possível à vista no horizonte, sempre se arranjam uns subsídios para equilibrar as "massas". Estamos conformados com esta maneira de viver, de não lutar por aquilo que queremos sem estarmos à espera que venha algum milagre lá da Europa que nos salve a empresa.
Acho que é por aí que devemos começar. Pela "desformação" das nossas classes empresariais demasiado coladas e encostadas às costas de um Governo que tem menos competências que os próprios empresários e de uma Europa que já deu (a Portugal) o que tinha a dar e que nos habituou a sermos demasiado "filhos da mamã".