novembro 24, 2006

NOTÍCIAS DA MOEDA BOA E DA MOEDA MÁ

Enquanto fiz umas curtas férias da Pátria ocorreram duas entrevistas televisivas com Santana Lopes e Cavaco Silva. Não vi nenhuma, mas Marques Mendes mostrou-me a de Cavaco Silva com a reacção que teve ao inevitável apoio presidencial ao Governo socialista. Os comentários que entretanto li fizeram-me lembrar estas palavras:

“Então, vejamos: enquanto durou Mário Soares em Belém o PS nunca conseguiu cheirar o poder. Vítor Constâncio tentou e perdeu para a maioria absoluta do PSD. Jorge Sampaio tentou e perdeu para a maioria absoluta do PSD. O PS queimou duas lideranças. Só António Guterres, com a maioria absoluta do PSD esgotada e Mário Soares de partida conseguiu fazer voltar o PS ao poder, coincidindo com o ciclo presidencial do PS.

Pois bem: há seguramente neste momento quem veja as coisas assim: Cavaco Silva irá para Belém, em princípio por dez anos. O que implica que a oposição do PSD à maioria absoluta do PS terá a dificuldade de esbarrar em Belém com um aliado objectivo do PS de Sócrates por estar convictamente obrigado à defesa da estabilidade política. E esta será uma grelha fatal que churrascará os próximos líderes do PSD. Com Marques Mendes à cabeça no PSD e por arrasto Ribeiro e Castro, no outro partido (terminologia cavaquista para designar o CDS).

Isto só tem uma possibilidade de saída que é a de a oposição ser feita conjunta e simultaneamente ao Governo e ao Presidente. A Sócrates e a Cavaco, ao estilo dois em um. Já se viu o suplício que é para o líder da oposição, de cada vez que ataca o Governo ver o PS a responder-lhe: “Nem Cavaco Silva está de acordo convosco!” e este ter de estar quieto e mudo em nome da estabilidade em que convictamente acredita? Ninguém resiste.

Talvez fosse a isto que Pacheco Pereira sibilinamente se referiu quando escreveu no seu blogue que “estas eleições são muito mais interessantes do que parecem, muito mais importantes do que se imagina. Elas mexem fundo no sistema político-partidário, nos partidos, nos grupos dentro dos partidos, nas personalidades. Muita coisa vai começar, alguma está a acabar de forma inesperada”.

Foi a 13 de Janeiro que me ocorreram estas singelas palavras. Nunca pensei é que elas se tornassem tão intensamente óbvias tão cedo.

Entretanto, parece que as duas entrevistas televisivas, fantasticamente emitidas no mesmo dia e à mesma hora, tiveram sortes populares diferentes. A de Santana Lopes teve mais audiência que a de Cavaco Silva. Por uma vez a má moeda suplantou a boa.

Mais uma vez sucede o trágico-cómico destino da alegada direita portuguesa: votou nas presidenciais para ajudar a esquerda em São Bento. A alegada direita, de tão estúpida (mesmo a mais estúpida do mundo, segundo um dos conselheiros de Estado da confiança de Cavaco Silva), merece. O país é que não. Mas isso, que interessa?

(publicado na edição de hoje do Semanário)

Publicado por Jorge Ferreira em novembro 24, 2006 12:04 AM
Comentários
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?